113- COMO SE FOSSE UM LADRÃO

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Era madrugada da sexta-feira 14 de Nisan. Jerusalém dormia recendendo sangue de cordeiro, bebedeira de vinho e festa. Nós também dormíamos, esparramados entre as oliveiras do Getsêmani, sonhando em viajar o quanto antes para a Galiléia e esconder-nos lá, em nossa terra… Só Jesus se mantinha acordado. Com a cabeça baixa, afundada entre suas mãos calosas, via passar as horas e rezava…

Jesus: … Que não se faça a vontade deles, mas a tua, Pai… Não a deles… mas a tua… Que os poderosos não vençam, mas sim tu, o Deus dos pobres…

Foi então que uma voz muito conhecida de todos nós, ressoou no meio da noite…

Judas: Jesus!… Jesus, você está por aqui?!… Jesus!…

Jesus se levantou num só pulo e veio em nossa direção…

Jesus: Acordem!… Não estão ouvindo?… Tem gente chegando… Pedro!… João!…

Pedro: O que foi?

Jesus: Psst!… Não façam barulho…

Jesus estava diante de mim, muito pálido, com um brilho de medo nos olhos…

Judas: Jesus!!… Onde você está?

Pedro: Maldição, João, esta voz é a de Judas!… O que será que o iscariote está procurando por aqui…?

João: Psst!… fique quieto e prepare-se… Avise os outros…

Pedro chamou Felipe e Felipe acordou Natanael. Tomé e André despertaram em seguida, apesar do vinho que haviam tomado durante a ceia… Cada um beliscou o companheiro que tinha ao lado e, em poucos segundos, os onze e Jesus estávamos com os olhos bem abertos e nos escondíamos entre os rochedos do horto…

Judas: Jesus!… O que está acontecendo, vocês não estão por aqui?!…

A voz de Judas se aproximava cada vez mais… Tiago e Simão levaram as mãos aos punhais que guardavam debaixo da túnica. Pedro e eu desembainhamos silenciosamente as duas espadas que havíamos trazido da casa de Marcos… Seguramos a respiração e esperamos…

Judas: Jesus!… Sou eu, Judas… Tenho uma coisa para lhe dizer… Onde você está?

Judas falava dentro da escuridão. Logo depois, uns galhos de oliveira se mexeram e o iscariote apareceu em um pequeno descampado, a pouca distância de onde nos escondíamos. Sua figura, alta e forte, com o lenço de sempre atado ao pescoço, destacava-se no meio daquela grande mancha de luz da lua…

Judas: Jesus!… Você está por aqui?… Venha cá um instante! Preciso falar com você…

Jesus, ao meu lado, respirou profundamente, como que tomando fôlego antes de empreender uma longa e difícil caminhada…

Jesus: Eu vou sair, João…

João: O que? Está louco? É uma emboscada, moreno, tenho certeza…

Jesus: Não importa, João. Vou sair.

João: Não, não faça isso…

Mas Jesus separou-se de nós e avançou lentamente até à clareira onde Judas estava esperando…

Judas: Até que enfim você apareceu… Bem que eu imaginei que você estava aqui… e vim procurá-lo…

Judas e Jesus, um à frente do outro, ficaram alguns segundos em silêncio… A lua de Páscoa, redonda, muito branca, vigiava a noite como o olho de um sentinela… Jesus se aproximou um pouco mais…

Jesus: Judas, companheiro, por que você falhou com a gente?

Judas: Tudo vai dar certo, Jesus. Não posso explicar agora, mas tudo vai dar certo. Confie em mim, moreno.

Judas deu um passo até Jesus e o beijou. Era o sinal combinado com o comandante da guarda do Templo… De repente, por entre os arbustos, apareceram dois soldados. Traziam cordas e correntes…

Um soldado: Você é o tal Jesus, não é mesmo?

Jesus: Sim, sou eu. O que há comigo?

Soldado: Está preso.

Jesus: E pode-se saber por que?

Soldado: São ordens superiores. Acompanhe-nos.

Os soldados se aproximaram de Jesus e já estavam amarrando suas mãos…

Pedro: Maldição, João, não vamos fazer nada…?

Pedro apertou a espada, cerrou os dentes e se lançou como uma flecha sobre os guardas… Foi uma coisa de segundos. Pedro descarregou o aço sobre a cabeça de um dos soldados, mas o golpe falhou e ele só atingiu a orelha. Tiago e eu saltamos sobre o outro, o derrubamos no chão e encostamos a lâmina do punhal em sua garganta. Os outros, quando viram aquilo, saíram em seguida de seus esconderijos para também ajudar…

Todos: Bom trabalho, Pedro!… Muito bem!…

Comandante: Que ninguém se mova!… Estão cercados!

A ordem do comandante da guarda do Templo gelou o sangue de todos nós. Havíamos caído numa arapuca… Então, vimos sair dentre as sombras muitos soldados armados com espadas e lanças… Alguns acenderam tochas para ver melhor nossos rostos… A tropa ia fechando o círculo em torno de nós…

Comandante: Falei para ninguém se mover.

Pedro: E você também não! Se der um passo a mais esse soldado morre!

Tiago: E este outro também!

Pedro mantinha um dos solados, que derramava sangue pela orelha, agarrado como a um escudo, fincando-lhe a espada nos rins… Tiago e eu mantínhamos o outro no chão, de boca para cima, ameaçando-o com a ponta do punhal…

Pedro: Não se aproximem!… Jesus, corra, escape por trás da cabana! Vamos logo, moreno, estou dizendo pra correr! Vai! Nós agüentaremos aqui até que você esteja longe…!

Jesus: Mas, o que você está dizendo, Pedro? Como ir embora e deixar vocês aqui?

Pedro: É você que eles estão procurando, moreno, será que não entende?

Jesus: Estão procurando todos nós, Pedro. E alguém tem que dar a cara pra bater. Vamos logo, embainhem a espada e vão embora. Agora é preciso ganhar tempo.

Pedro: Mas, e você, Jesus, como fica…?

Jesus: Não se preocupe comigo, Pedro. Deus me ajudará a encontrar uma saída. Vão vocês, e tratem de fazer alguma coisa… Vamos, vão embora!

Jesus arrancou a espada das mãos de Pedro e a jogou longe… A lâmina brilhava ensangüentada, à luz da lua…

Jesus: E vocês, quem vieram procurar?

Comandante: Aquele a quem chamam de Jesus de Nazaré. Trago uma ordem de prisão contra ele.

Jesus: Sou eu. Estou desarmado. Não farei resistência…

Jesus avançou até o chefe da guarda com as mãos sobre a cabeça… Em seguida, parou.

Jesus: Se é a mim que procuram deixem livres estes outros. Eles não têm nada a ver com o assunto. Pedro, Tiago, João, vão embora daqui. Rápido!… Todos embora… Logo a gente se vê.

Pedro: Mas, moreno…

Jesus: Vão embora estou dizendo! Avisem minha mãe e as mulheres. Pedro, por favor, fale com Judas para ver o que aconteceu.

Judas já não estava no horto. Tinha escapulido por entre as oliveiras. Nós saímos correndo por trás da cabana onde Marcos guardava a prensa de azeite… Jesus ficou só, diante dos soldados…

Jesus: Como se eu fosse um ladrão vocês vieram me procurar com espadas e lanças. Enganaram-se. Os ladrões são outros. Os ladrões são os chefes de vocês. Eles trabalham na escuridão porque têm medo da luz.

Comandante: Não percam tempo. Amarrem esse sujeito e vamos embora!

Amarram-lhe as mãos às costas e, com outra corda, atada à cintura, o arrastaram…

Comandante: Missão cumprida. Vamos, homens, em marcha!… Ao palácio de Caifás!

E foram empurrando Jesus até o sopé do monte… Marcos, o amigo de Pedro, que havia visto aquilo tudo da cabana onde dormia, começou a andar atrás dos soldados. Estava coberto por apenas um lençol…

Soldado: Ei, você, amigo, o que está querendo?!

Comandante: Esse tipo é suspeito! Peguem-no!

Marcos, cheio de medo, tirou o lençol e saiu correndo nu por entre as oliveiras…

André: Maria!… Maria!

Maria: Ai, menino, por Deus, o que aconteceu?

André: Eles o prenderam, Maria.

Maria: Prenderam quem?

André: Jesus. Prenderam Jesus.

Maria: Ai, não, ai, meu filho!… Não pode ser… ai, não!

Madalena: Mas o que aconteceu, diacho? Fale logo!

Tiago: Fiquem quietas, caramba, sosseguem!

André: Fale um de cada vez. Explique você, Tiago.

Tiago: Fomos surpreendidos no horto. Uma emboscada. O dedo-duro foi Judas.

Madalena: Só podia ser, por isso ele passou antes por aqui… ai, iscariote, quando eu puser as mãos em você…!

Tiago: Veio um pelotão de soldados, nos rodearam e pegaram Jesus.

Madalena: E vocês são tão maricas que nem o defenderam!

André: Defendemos, sim, madalena! Pedro até cortou a orelha de um guarda, mas…

Madalena: Uma orelha, grande coisa! Covardes! Diga logo, onde está Jesus? Para onde o levaram? Diga onde ele está que eu vou até lá e arranco os olhos do exército inteiro se for preciso, mas ninguém vai tocar num só fio de cabelo do moreno, porque senão vão se ver comigo, pelos ossos de minha mãe, esses desgraçados vão ter que me ouvir, ah, se vão! E vocês, cambada de covardes, lixo de gente, e ainda ficam falando das mulheres, se eu estivesse lá…!

Tiago: Cale essa boca, madalena, o que há com você?… Foi Jesus que não quis fugir.

André: É verdade. Nós fizemos o que pudemos, mas…

Maria: Ai, Tiago, meu filho, o que vão fazer com Jesus, diga-me?

Tiago: Não podem fazer nada, Maria. O que eles querem é meter medo na gente. Quando passarem as festas eles o soltarão, tenho certeza…

André: Jesus saberá se defender no tribunal, puxa vida!

Madalena: Eu limpo meu nariz com esse tribunal. Neste país, os juízes são como minhas colegas de profissão: dinheiro e nada mais.

Tiago: Tudo bem, madalena, mas nesses dias não podem fazer nada. Há muita gente em Jerusalém. Se botarem a mão em cima de Jesus, a cidade inteira se levantará para protestar!

Madalena: Eles já puseram e vocês, “seus homens de confiança” saíram correndo como galinhas! Maldição. Para onde será que o levaram? Isso é o que eu quero saber!

André: Seguramente para o palácio de Caifás.

Madalena: Então vamos para lá, caramba! O que estamos esperando? Vamos!…

Enquanto as mulheres e os outros do grupo saíram correndo pelas vielas escuras e solitárias de Jerusalém até o palácio do sumo sacerdote, Pedro e eu, depois de dar muitas voltas, depois de falar com o criado amigo meu que trabalhava para Caifás, encontramos Judas num casebre do bairro de Ofel…

Pedro: Maldito iscariote, estávamos mesmo querendo pegar você!

Judas: Mas, o que acontece com vocês? Ainda não se deram conta?

João: Sim, já nos demos conta de que você é um cachorro traidor.

Judas: Eles me pediram segredo e eu não podia dizer nada antes para vocês, companheiros. Mas agora já dá. Foi tudo um plano do movimento, compreendem? Com Jesus preso, o povo tomará as ruas! Barrabás está organizando o levante. Dentro de algumas horas, Jerusalém será um vespeiro revolto. Libertaremos Jesus! E libertaremos Israel!

João: Mas… o que você está dizendo, Judas?

Judas: Que está tudo preparado. Barrabás e o pessoal da Peréia vão assaltar o arsenal de …

João: Imbecil!!

Judas: É verdade, João! Concordo com você, eu devia ter contado antes, mas, veja só…

João: Imbecil!!… Barrabás também está preso.

Judas: O que você disse?

João: Passaram a rede. Pegaram Barrabás, Dimas e vários outros do movimento. Está tudo controlado. Ninguém fará nada, Judas, ninguém.

Judas: Mentira… isso é mentira… não pode ser…

João: É verdade, Judas. Meu amigo que trabalha na casa de Caifás acabou de me contar.

Judas: Não… Não, não pode ser… não pode ser!… nãããooo!!

E Judas, de Kariot, desmontou-se sobre o chão de terra do casebre chorando e golpeando o rosto com os punhos fechados…

*Comentários*

Do Getsêmani até o Calvário, Jesus se verá enfrentando não a fatalidade de seu destino, mas uma série de circunstâncias dolorosas diante das quais porá às claras a qualidade de sua vida e de seu compromisso. Passo a passo, a cada momento, Jesus tentará descobrir o sentido do que acontece para permanecer fiel a Deus e à sua missão. Em nenhum momento de sua paixão Jesus deixou de decidir, de escolher suas palavras e sua atuação. Foi livre. Toda a paixão manifestará sua coragem e sua retidão.

Os levitas (clérigos de classe inferior aos sacerdotes) desempenhavam diferentes funções no templo. Entre elas, a de policiais. São estas as tropas que vão prender Jesus no Getsêmani. Esses levitas-policiais patrulhavam o templo para que ninguém passasse além do lugar que lhe correspondia por sua categoria. De noite, montavam guarda em 21 postos situados nas portas e na esplanada. Esta polícia ficava à disposição do Sinédrio (aristocracia sacerdotal), que podia encarregá-la de missões especiais – como esta de prender Jesus. De fato, todos os serviços de segurança da província da Judéia recaíam sobre as autoridades de Jerusalém e sobre esta polícia que estava às suas ordens. À frente da tropa de policiais do Templo estava um comandante ou guarda superior.

No horto os discípulos praticaram resistência armada para que Jesus não fosse detido. Saíram já da casa onde celebraram a ceia com um par de espadas e o evangelho anota que Pedro feriu um dos soldados. Muitos dos discípulos tinham, com toda a certeza, raízes zelotas e provavelmente portariam armas. Mas Jesus não os apóia neste caminho. No Getsêmani sua opção foi a de não-violência. Não se deve interpretar simplistamente que os discípulos fugiram por covardia. Tentariam ganhar tempo, entender o que havia acontecido, procurar uma solução, pedir ajuda. Deve ter sido um momento de grande desconcerto para todos. Para Jesus e para seu grupo.

(Mt 26, 45-56; Mc 14, 41-52; Lc 22, 47-53; Jo 18, 1-11)