12- HOJE É UM DIA ALEGRE

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Maria: … Não, não acredite nisso, vizinha, não acredite… eu já percebi tudo… Jesus saiu preocupado, com aquele formigueiro de idéias esquisitas… Mas não pense você que é coisa de amor, não… ah, bem que eu queria que fosse!… Ai, Jesus, filho… Tenho medo de que ele entre numa fria, vizinha… São tempos tão difíceis estes… Não, vizinha, não se levante, encoste-se bem… assim… você vai ver como esse caldo vai lhe fazer bem… esquenta até os ossos… Minha mãe preparava sempre esse remédio, vai ver como é bom…

Desde que Jesus deixou Nazaré para ir ao rio Jordão ver João, o profeta, os dias se tornaram muito longos para Maria. As tardes ela passava cuidando de sua vizinha, a mulher de Neftali, que estava meio doente…

Maria: … pois eu lhe digo, vizinha, que nesses dias eu sinto como se sete anos tivessem caído em cima de mim… Imagine só, comendo sozinha… e depois, na hora de dormir, esse silêncio na casa… é que Jesus ronca muito, sabe… Mas pra mim, esse rum-rum me acompanha… Sabe, eu acho que era isso que me fazia dormir, porque agora acordo de repente no escuro, com esse sobressalto… Na noite passada, bem, um barulho… Ouço e já começo: Quem está aí? Quem está aí?… Até acendi a lamparina… Ai, vizinha, quando a gente fica sem os filhos parece que falta metade da vida… Espere, eu vou jogar no caldo umas folhinhas daquela menta que tem ali no terreiro… Isso vai lhe cair como o próprio maná do céu… E se Jesus acaba ficando lá pelo Jordão, heim, vizinha?… Eu estou com essa idéia cravada aqui, na metade do peito, como uma agulha… Bom, Deus conhece a vida de cada um e sabe também para que serve a madeira de que cada um é feito… Ele saberá por que caminho quer que Jesus ande… O que eu peço é que Ele o guarde de todos os perigos, mas meu filho é tão teimoso… Nisso puxou seu pai, você não acha, vizinha?… Ah, você já dormiu… Então vou embora… tenha um bom sono…

Maria deixou a mulher de Neftali e caminhou até sua casa. Ao entrar, beliscou sem muita vontade um pedaço de pão preto e se jogou na esteira. Naquele dia estava muito cansada, e o sono veio logo para ela…

O sol começava a assomar pelo horizonte, apagando no céu as últimas estrelas que ainda estavam acesas. O ar fresco da manhã pôs a dançar as espigas e a erva do campo… Amanhecia em Nazaré. Jesus, cansado mas contente por tudo o que havia visto e ouvido no Jordão e na solidão do deserto, estava de volta.

Jesus: Ei, mas o que você está fazendo aqui tão cedo, Tonin, meu garoto!…

Tonin: Vim buscar caramujos. Ontem choveu e saíram muitos, veja…

Jesus: Ah, você gostaria dos lagartos que vi no deserto… eram desse tamanho…

Tonin: Você estava no deserto?

Jesus: Sim, venho de lá.

Tonin: E o que você foi fazer lá?

Jesus: Nada, procurando…

Tonin: Procurando lagartos?

Jesus: Não, lagartos não. Procurava outra coisa.

Tonin: E a encontrou?

Jesus: Sim, a encontrei! Tchau, Tonin, depois você traz os caramujos para eu ver.

Tonin: Tchau, Jesus!

Maria, como sempre, estava acordada desde muito cedo. Havia posto água para esquentar no fogão para preparar as lentilhas e estava sentada no chão moendo o trigo para fazer a farinha do pão.

Jesus: Dona Maria, não teria um pouquinho de leite para um pobre caminhante?

Maria: Sim, mas, quem é?… Jesus, filho, é você?… Ah, que bom que chegou!…

Jesus: Aqui estou eu, mamãe!

Maria: Ai, obrigada, Senhor, obrigada! Todos os dias rezando a Deus para que o levasse bem e o trouxesse melhor! Pelo Deus bendito, já estava ficando preocupada, Jesus!… Você demorou muito e… e como foi com João? Dizem que o prenderam. Você estava lá quando isso aconteceu?

Jesus: Não, eu já tinha saído… É, o prenderam sim… Fecharam a boca do profeta.

Maria: É o que eu digo, Jesus, é o que eu digo… Acha que o mataram?

Jesus: Não, acredito que não!… Herodes não se atreveria. Acabará soltando João. Mas, enquanto isso, alguém terá de ocupar seu lugar. João acendeu um fogo e não podemos deixar que se apague.

Maria: Isso de que venha um outro profeta é coisa de Deus… Mas … bem, não está com fome? Não está com sede? O que quer comer?

Jesus: O que temos aí?

Maria: Pois olhe, filho, quando você saiu estive em Caná e comprei esse vinho de lá que é uma delícia!… Disse: quando Jesus voltar o tomaremos! E já que você voltou… Aqui está! Olhe, umas tâmaras também…

Jesus: Ahhh…! Muito bom… Beba também, hoje é um dia alegre.

Maria: Jesus, vejo que está muito contente. Está mais magro, mas com uma cara melhor…

Jesus: Você sempre acerta… quem consegue esconder algo de você? É, estou contente, não posso negar. Apesar de um tanto preocupado com essa história do João… Um grande sujeito esse meu primo… A verdade, mamãe, é que por trás dessa viagem estava a mão de Deus…

Maria: Quando saiu, você estava muito nervoso. Fiquei pensando em tudo o que você havia dito, que estava inconformado, que não sabia por onde começar… Isso ficou dando voltas e voltas no meu coração… E agora, já sabe?

Jesus: João me ajudou a ver mais claro… Sabe de uma coisa, mamãe? Eu me batizei no Jordão… Foi… Foi algo grande… Tenho tantas coisas pra lhe contar… Estive também no deserto…

Maria: No deserto? Mas, o que você foi fazer lá?… Ai, meu filho, então é por isso que está tão magro… Dizem que só os escaravelhos agüentam esse calor do deserto…

Jesus: Bah! isso é conversa. Ali eu também encontrei um lugar. E pensei muito… Mamãe, você imagina o que seria dizer aos pobres que Deus nos dá de presente o seu Reino, anunciar a todos os infelizes que choram em nossa terra que logo serão consolados?… Você imagina o que seria lutar pela justiça, sabendo que Deus vai à frente, junto conosco, ombro a ombro

com a gente?

Maria: Seria algo grande, Jesus, seria algo muito grande!… Não haveria em Caná vinho suficiente para celebrar o dia em que isso acontecesse… Você está tão contente que até me contagia… Mas filho, veja, é preciso pôr os pés no chão… Esse dia chegará mas nem você nem eu o veremos… Falta muito para esse dia…

Jesus: João diz que o Libertador está chegando.

Maria: Sim, os zelotas também dizem isso. E que ele cortará o pescoço de todos os romanos. Mas quem tem os pescoços cortados são eles. Tome cuidado com o que você fala, filho. Há mais soldados que nunca na Galiléia. Por causa da prisão de João eles têm medo que o povo se revolte… Está tudo vigiado.

Jesus: Pois olhe quem vem por aí… A comadre Suzana!

Suzana: Onde está esse moreno que já voltou do Jordão?… Ai, menino, que vontade eu tinha de ver você! Estávamos aqui, sua mãe e eu e todos mais assustadas que coelhos com essa história que nos contaram sobre João. Dizem que o tiraram do rio e o arrastaram como se fosse um animal perigoso… Ai, moreno, onde vai parar esse nosso país?

Jesus: Mas você está muito nervosa, Suzana… Que história é essa de estar assustadas como coelhos?… A voz dos profetas não pode ser calada nem por Herodes, nem por ninguém. Nós todos temos de continuar gritando com a voz de João.

Suzana: Não lhe disse, comadre Maria, não lhe disse? Olhe como ele voltou. Feito um revolucionário… desafiando o rei Herodes!

Jesus: Mas Suzana, fique tranqüila… Venha cá, por que não prova um pouco desse vinho?… creio que você está precisando disso para ficar mais alegre…

Suzana: Alegre! Alegre!… O que aconteceu lá no Jordão, Jesus? Conte-nos o que você viu por lá…

Jesus: Vi coisas grandes. Faz tempo que em Israel não se ouviam verdades tão verdadeiras. Faz tempo que o povo não olhava para o céu com tanta esperança.

Suzana: E o que é que virá do céu para que tenhamos de ficar olhando pra cima? É para terra que é preciso olhar, moreno. E na terra manda Herodes, manda Pilatos e todos esses safados. Vão matar esse profeta João e se você se meter com esses encrenqueiros, matarão você também.

Maria: Bem, Suzana, deixe isso pra lá… Hoje é um dia alegre, devemos estar contentes, não venha você estragar agora a festa com o…

Suzana: Olhe, Maria, não mude de lado agora, porque você era a primeira a ter o coração na boca quando trouxeram a notícia sobre João… E não era para menos, rapaz. Como não se preocupar?… A gente ainda se lembra de seu pai, José… como apanhou, Deus meu!… E tudo por defender aqueles fugitivos que andavam se escondendo…

Jesus: Meu pai foi um homem justo que não deu pra trás quando chegou o momento. Sou muito orgulhoso dele. E Deus também está orgulhoso… Você já pensou o que seria, Suzana, se pudéssemos anunciar aos quatro cantos desta Galiléia que ele e todos os que morrem pela justiça preparam o Reino de Deus?

Suzana: Ai, meu filho, não se ponha a gritar isso por aí que o matam também! Não grite nada, moreno. Cada um deve ficar na sua. Vamos trabalhar e ficar tranqüilos, que é isso que Deus quer, a paz, a tranqüilidade.

Jesus: Fica melhor você dizer que é isso que alguns querem, que continuemos dormindo como Noé dentro de uma tenda, para eles nos deixarem de cueiros.

Suzana: Não fale assim, Jesus. E você, Maria, aconselhe esse rapaz que um dia ainda vai lhe dar muito desgosto com essa indigestão política. Escute o que eu digo, moreno, jogue fora essas idéias esquisitas e fique aqui tranqüilo com seu martelo e seus pregos. Aprende isso de seu pai, José, caramba, que tão bom exemplo lhe deu.

Jesus: E agora você vem com essa de meu pai. Parece que você nem o conheceu, Suzana. Já não se lembra mais quando Boliche e ele foram protestar em Naim por causa do preço da farinha, heim?… Não se lembra mais?… E quem se levantou na sinagoga quando a raposa do Ananias queria mudar a cerca da fazenda e ficar com as terras do Baltazar?

Suzana: Mas isso aconteceu faz muito tempo…

Jesus: Muito tempo, mas as pessoas não se esqueceram.

Suzana: É, eu não digo que se esqueceram, não…

Maria: Bem, bem, deixem as discussões para amanhã, que por hoje já tivemos bastante. Vocês dois sempre andam como cachorro e gato. Eia, onde está a jarra…?

Jesus: Isso mesmo. Venha, Suzana, mais um pouco de vinho para ver se você se anima e se lhe passam esses medos de uma vez…

Suzana: E aí, Maria? Este foi o vinho que você trouxe de Caná?

Maria: Este mesmo. Lá eles o vendem barato e é muito bom.

Jesus: Se você gostou dele, posso lhe conseguir alguns litros quando passar por lá…

Maria: Vai viajar a Caná, Jesus?

Jesus: Sim, dentro de um par de dias quero ir até Cafarnaum. Passarei por Caná.

Maria: Mas aqui você ainda tem trabalho pendente. Tenho três encomendas para você. Sabe que o romano voltou e quer que você faça mais ferraduras?

Jesus: Não me diga que ele gostou daquelas!… Bem, pois então teremos outro denário para lentilhas e azeite…

Maria: Você tem que fazê-las logo…

Jesus: Sim, eu as farei. Mas é que eu conheci lá pelo Jordão uns caras de Cafarnaum. São pescadores do lago e ficamos muito amigos. Queria tornar a vê-los…

Suzana: Estou certa de que querem meter você em suas conspirações. Por acaso um deles não é um tal de Simão, que chamam de Pedro?

Jesus: Sim, é um deles. Você o conhece, Suzana?

Suzana: E como conheço! É o filho do velho Jonas. Eu até sou meio parente da mãe dele, que descanse em paz. Ai, moreno, esse aí desde menino era mais briguento do que um galo no cio!

Jesus: É um grande sujeito esse Pedro. E seu irmão também.

Suzana: Andrezinho, o magricela, como o chamavam…

Jesus: Sim, André. E tem mais outros que conheci por lá…

Maria: E havia muita gente pelo Jordão, Jesus? Conte-nos…

Jesus: Mamãe, aquilo parecia um formigueiro. Muita gente, muita. O rio estava cheio de gente, e o melhor de tudo é que eram homens e mulheres com esperança, com ganas de que as coisas mudem em nossa terra. E eu também creio que podemos mudar as coisas nesse país. Temos de fazer isso!

Maria: Me alegra ver você tão contente, Jesus. Você não acha, Suzana, que ele está com uma cara muito boa?

Suzana: O que eu estou vendo é que esse seu filho voltou com a cabeça muito quente e…

Jesus: Vamos, Suzana, pare com isso e sente-se por aí, pois com esta viagem tenho histórias para um bom tempo…

Suzana: Espere aí, moreno, vou correndo avisar o Simeão e a velha Sara… e também o Neftali e os rapazes.

Jesus: Sim, diga a todos que venham, que tenho muitas coisas para contar.

E todos os vizinhos se reuniram na casa de Maria para escutar as notícias do profeta João… Já fazia uns trinta anos que Jesus morava naquele povoado de Nazaré vivendo com aqueles patrícios seus, trabalhando a madeira, o ferro, a terra ou o que aparecesse, como um a mais, como um entre tantos… Agora, para ele havia chegado o momento de ir abrir os sulcos do Reino de Deus lá em Cafarnaum, junto ao lago da Galiléia. Naquela manhã de primavera tudo parecia novo. As espigas prometiam pão e as árvores, frutos. Uma grande esperança estava chegando para Israel.

*Comentários*

Jesus havia deixado um dia Nazaré, a aldeia onde havia sido criado, e foi viver em Cafarnaum, uma cidade às margens do lago, bastante grande e importante naquele tempo. E embora Cafarnaum não estivesse tão longe de Nazaré (uns 45 km), a decisão trazia consigo uma despedida de sua mãe e de seus patrícios. Este momento da despedida de Jesus e Maria no começo da “vida pública”, é um tema que tradicionalmente serve de reflexão aos cristãos. Todos, na hora de fazer uma opção, temos que dizer mais de um adeus e renunciar a alguma coisa. Uma vocação de serviço sempre supõe sacrifícios. É o preço do Reino de Deus.

Jesus compartilha com sua mãe o que havia descoberto no Jordão ouvindo o Batista e na solidão do deserto. Maria, como Jesus, foi crescendo na sua fé e na compreensão da vocação de seu filho, na aceitação da missão a que Deus o destinava. Esse processo significou para ela dúvidas, sofrimentos, medo, ansiedades, insegurança. Como o é para tantas mães o compartilhar o compromisso de seus filhos que lutam pela justiça pondo em perigo até a própria vida.

De José, o evangelho apenas diz que era um “homem justo” (Mt 1,19). Partindo desta frase tão simples e tão profunda, é bom reconstruir a imagem de José para que sirva aos cristãos de modelo não só de honradez, mas de compromisso, valentia, inclusive rebeldia: tudo o que significa ser um homem justo. Este exemplo de vida foi o que José deixou a Jesus como melhor herança. Ele veria seu pai tomar partido quando chegava o momento, colocando-se do lado dos mais necessitados. José deve ter tido uma influência decisiva sobre Jesus. Não hánenhum fundamento – nem histórico nem teológico – para essas imagens que nos apresentam o esposo de Maria como um homem ancião, resignado, passivo, sem vitalidade.

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