65- OS CACHORROS ESTRANGEIROS

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Naqueles dias subimos ao país de Tiro. Atravessamos as fronteiras de Israel pelo norte, próximo à lagoa de Meron, e entramos nas terras marítimas e cheias de bosques dos sírio-fenícios.

Pedro: É a primeira vez que ponho as patas fora do nosso país.

João: Não é só você, pedrada. É a mesma coisa para todos nós… Ou será que Jesus já esteve no estrangeiro…?

Jesus: Não, nunca estive. Nós, do interior, viajamos pouco.

João: Bem, pois se todos somos novatos no assunto, vamos tomar cuidado. Dizem que por aqui a metade das pessoas é ladra e a outra metade é usurária. Sendo assim, olhos bem abertos!

Jesus: O que dizem, João, é que em matéria de comércio não há quem ganhe desses cananeus.

Felipe: Sim, isto é verdade. Porque eu entendo dessas coisas, eu sei. E se quiserem bons tecidos, aqui tem, vidro de primeira, aqui tem.

Pedro: E se quiserem safados de primeira, também tem, Felipe. O que essa gente vende com uma mão, rouba com a outra… Todos os nossos conhecidos que passaram por este país dizem a mesma coisa…

Jesus: Acho que já estamos bem perto de Tiro… Não será aquilo que se vê lá longe?

Tiro, um dos maiores e mais importantes portos do país dos cananeus, era uma cidade branca, construída sobre as rochas, junto ao mar. Em Tiro vivia Salatiel, um israelita amigo do velho Zebedeu. Ele havia nos convidado a ir até lá…

Jesus: Onde será que fica a casa de Salatiel?

João: O bairro dos israelitas é aqui nas beiradas. Não devemos estar longe…

Jesus: Vamos perguntar a alguém…

Pedro: Se pudermos encontrar sozinhos, é melhor.

Jesus: Por que, Pedro?

Pedro: Não aposto nem um fio de cabelo nesses estrangeiros. Cada macaco no seu galho. O que é nosso, é nosso, o que é deles, é deles.

Pouco tempo depois, o sotaque das pessoas que conversavam pelas ruas nos indicou que estávamos no bairro dos nossos conterrâneos israelitas. Perguntamos a um velho de longas barbas grisalhas pela casa de Salatiel e ele mesmo, mancando e apoiando-se num longo bastão de cedro, nos levou até ela…

Salatiel: Sejam bem vindos, compatriotas. Eu os esperava amanhã, e o velho Joaquim vem me avisar que já chegaram, rá, rá!… Isso sim é que é uma boa surpresa!

Pedro: Saímos um dia antes. As coisas andam bastante ruins lá pela Galiléia.

Salatiel: É mesmo? Herodes anda aprontando as dele, não é? Aqui todo mundo sabe o que acontece por lá… Mas, bem, sentem-se, que agora mesmo trarão vinho, que é o mais importante… Melita, Melita!… Duas jarras de vinho, agora mesmo!… Ah, não se assustem, é vinho da nossa terra. O daqui não vale nada! Água suja tingida de púrpura!… E então, Jesus, Pedro, João… Tinha muita vontade de conhece-los… Chegou até aqui a história de que vocês estão alvoroçando a Galiléia. Quero que depois falem com nossos conterrâneos. Neste país também tem muita coisa para mudar, sim senhor!

Felipe: Esta cidade é muito grande, não é mesmo? Ao chegar atravessamos a praça e não se pode dar um passo…

Salatiel: Vocês chegaram em dia de mercado. Esses cachorros estrangeiros são os maiores camelôs do mundo!…Hoje todos eles vão para a rua e nós ficamos em casa, re, re! Juntos, mas não parceiros!

Jesus: Quantos israelitas vivem por aqui, Salatiel?

Salatiel: Bem, não é difícil saber. Todos nós vivemos neste bairro. Creio que sejamos uns trezentos, sem contar as mulheres e as crianças. É, nos defendemos muito bem, é isso aí. Esses estrangeiros precisam de nós. E trabalho não falta. Os cananeus são muito astutos para os negócios, mas se não fosse por nós, pouco fariam, re, re! Onde um de nós põe a mão, as pedras se transformam em dinheiro, sim senhor!

Salatiel foi nos explicando como era a vida de nossos compatriotas naquele país estrangeiro. Já fazia muitos anos que ele vivia ali com sua família. Era uma espécie de patriarca de seus conterrâneos.

Salatiel: É penoso viver entre pagãos, rapazes. Esses cachorros estrangeiros podem saber muito do comércio de púrpura, mas são ignorantes em todo o resto. Têm um deus em cada bairro, imaginem vocês… Ah, quando alguém vive aqui, longe da pátria, é quando de verdade se agradece a Deus por ter nascido em um país como o nosso. Deus soube escolher bem quando elegeu Israel como sua nação. Bom, porcaria, essa minha língua também merece descanso… Estão com fome?

Pedro: Sim, Salatiel. A última vez que vimos um pedaço de pão, foi quando atravessamos a fronteira….

Salatiel: Pois então vamos comer! Daqui a pouco estará por aqui um bom punhado de conterrâneos para que vocês lhes expliquem o que estão fazendo lá pela Galiléia… Ei, Melita, Melita!

Melita: Pois não, senhor…

Salatiel: Ah, quando penso que uma dessas cananéias dorme debaixo do meu teto, se me remexem as tripas, re, re, mas o que me consola é que esteja sob minhas ordens…

Jesus: Faz muito tempo que ela está com você, Salatiel?

Salatiel: Bah, o marido a abandonou ainda recém-casada e com uma filha faz uns… quatro… cinco anos. Então eu a comprei como criada. Foi um bom negócio, sabem? Custou bem barato… Ah, uma cadela dessas não vale nem o pó das sandálias das nossas mulheres… Já repararam como são feias…? Por mais penduricalhos que se ponham em cima…!

Pouco depois, Melita chegou com uma grande panela de lentilhas e uma travessa de berinjelas e as pôs sobre a mesa. Em seu rosto jovem, da cor das azeitonas, como o dos homens e mulheres sírio-fenícios, já se notavam as rugas deixadas na face pelo pranto e os sofrimentos…

Salatiel: Eia, vamos rezar para que Deus abençoe estes alimentos! “Bendito e louvado sejas, Deus de Israel, tu que colocaste nosso povo acima de todas as nações! Lembre-se, Senhor, dos que vivem fora, no meio dos pagãos que não conhecem teu amor e dos estrangeiros que não respeitam tuas leis, e faze com que voltemos logo a comer o pão em nossa terra”.

Todos: Amém, amém!

Salatiel: Ao ataque, rapazes, que na fonte não ficarão nem os talos dessas berinjelas!

Quando já estávamos terminando de comer…

Salatiel: Ah, com vocês aqui, à minha mesa, parece-me que estou junto ao meu querido lago da Galilléia… Mas eu não perco a esperança, não senhor: um dia desses, sacudo as sandálias no nariz desses pagãos e volto para lá!… “Laralá… Galiléia, minha terra querida…”

Todos: Muito bem, muito bem!

Salatiel: Ah, caramba, quanta saudade…!

Melita: Senhor, não mais querrer…?

Felipe: Como disse…?

Melita: Não mais querrer…?

Felipe: Escute, Salatiel, que diabos esta mulher está me perguntando? Não estou entendendo nada!

Salatiel: O que acontece agora, Melita?

Melita: Não mais querrer, senhor?

Salatiel: O que queremos é que você saia daqui e nos deixe tranqüilos. Vai, bobona, para a cozinha, que é o seu lugar.

Melita: E o vinho, senhor… ponho aquilo?

Salatiel: Rá, rá… Sim, ponha ali… Rá… rá! Vocês ouviram? Não sabem nem falar! Rá, rá, rá!… Vejam só, vejam só… Melita, diga a esses amigos o que você joga na sopa para que ela fique saborosa…

Melita: Senhor, jogo sarsenha…

Salatiel: Sarsenha… sarsenha… Cinco anos e ainda não aprender a falar salsinha!… Rá, rá… Vejam só, porque não lhes diz também como você chama as flores que mandei semear ali fora, no jardim…

Melita: Senhor, são lirrios e margarridas…

Salatiel: Rá, rá! Ai, ai, acho que vou estourar de tanto rir…! E olhem que eu a ensinei falar direitinho, e nada!… Rá, rá, rá…! Puxa vida… Olhe, Melita, você está vendo este barbudo na sua frente? É um médico famoso, um curandeiro… Peça que ele faça alguma coisa por sua “fila”… Rá, rá rá…! Vamos lá, mulher, peça, peça…

Melita: Você é médico, senhor?

Melita, a empregada Cananéia, olhou Jesus com um brilho de esperança em seus olhos negros e fundos…

Salatiel: Esta infeliz só faz chorar por causa da sua filha… por causa de sua “fila”, como ela diz… Rá, rá rá…! Lacrimejando o dia todo… Essa menina nasceu doente e nem os médicos nem as suas lágrimas vão cura-la! Meta isso na cabeça e entenda de uma vez, Melita!

Melita: Você é médico, forrasteirro?

Salatiel: Rá, rá, rá…! É, ele é currandeirro, sim!… É que me dá vontade de rir, ouvir esses cananeus falarem!

Melita: Forrasteirro, você pode ajudar minha fila?

Salatiel: Já, já veremos isso…! Agora vai, Melita, cuidar de seus afazeres, que eu chamarei se precisarmos de alguma coisa…

Melita: Ajude-a, forrasteirro…!

Salatiel: Mas que mulher mais abusada! Estou mandando você ir. Você com seu fogão, nós com nossas lentilhas!

Mas Melita não ia embora. Esfregando as mãos no sujo avental e com os olhos chorosos, aproximou-se ainda mais de Jesus…

Melita: Minha fila está doente, ajude minha fila…! Cure-a, você é um grande profeta!

Salatiel: E o que sabe você deste homem?… Claro, no mínimo estava escutando por trás da porta. Como sempre! Mexericar e meter o bedelho em tudo, é só isso que você sabe fazer!

Jesus: Espere, Salatiel, deixe que ela…

Salatiel: Não, Jesus, minha paciência já se esgotou…Puff, é isso que acontece por dar confiança… Você dá um dedo e lhe tomam a mão… Pedro, João, Felipe… desculpem por isso tudo… Vamos, saia logo daqui, vai chorar lá na cozinha…

Então Melita se atirou soluçando aos pés de Jesus…

Salatiel: Mas, o que é isso? Onde já se viu tanto descaramento? Jesus, espante essa cadela daqui!… Não perca seu tempo com ela… vamos, vamos…

Melita: Ajude minha fila, ajude-a!!

Jesus cravou seu olhar em Salatiel, o israelita, e sorriu com ironia…

Jesus: Mulher, como posso ajuda-la?… Não posso perder meu tempo dando aos cães o pão dos filhos…

Melita: Está certo, forrasteirro… mas, veja, os cães também comem as migalhas de pão que caem da mesa dos senhores…

Melita, com a cabeça baixa, como um cachorro espancado, continuava no chão…

Jesus: Levante-se, mulher. Ninguém deve ficar aos pés de ninguém… Levante-se e vai tranqüila… Sua filha ficará boa, eu lhe garanto…

Quando Melita saiu à procura de sua filha, Jesus se voltou para Salatiel, o velho patriarca do bairro judeu de Tiro…

Jesus: Você nasceu em Israel, mamou ali a história de amor de nosso Deus… mas não entendeu nada. Para Deus não há fronteiras. Ele rompe as fronteiras entre os povos, como palha seca… Para Deus esta não é terra de cachorros, mas terra de homens. De homens e mulheres como todos os demais. Porque na casa de Deus ninguém é estrangeiro.

Dois dias depois, regressamos a Israel, nossa pátria, pelo caminho dos fenícios. E ao cruzar a fronteira, quase nem nos demos conta, porque a terra tinha a mesma cor, nas árvores brotavam as mesmas folhas e os pássaros, de um lado e outro cantavam igual.

*Comentários*

A província romana da Síria era o território estrangeiro em que vivia maior número de israelitas. Entre a Síria e a Palestina existiam, por isso, muitíssimos contatos. Havia ainda mais com a província do norte da Palestina, a Galiléia, com quem a Síria fazia fronteira. Dentro do território da Síria estavam Tiro e Sidon, cidades importantes dos fenícios, grandes navegantes e comerciantes do mundo antigo. As ruínas do que foram Tiro e Sidon, correspondem hoje ao território do Líbano, ao norte de Israel.

Tiro era uma cidade importante nos tempos evangélicos. E o foi durante séculos. Tinha dois portos de ativo comércio com outros países do Mediterrâneo e também indústrias de metais, tecidos, corantes (especialmente, púrpura) e cristal. Uma grande colônia israelita havia se estabelecido ali. Como os judeus sempre foram muito hábeis no comércio, conseguiram prosperar rapidamente, mas como povo nacionalista – e às vezes racista – não se misturaram com os habitantes de Tiro. No evangelho, eles são chamados de sírio-fenícios ou cananeus.

Somente nesta passagem nos conta o evangelho que Jesus saiu de sua pátria para um país estrangeiro. E foi somente com esta mulher cananéia e com um centurião romano que tinha um criado doente que Jesus realizou um sinal do reino de Deus em forma de cura para pessoas não israelitas. A atividade de Jesus, certamente, não transcendeu as fronteiras geográficas de Israel. Apenas não teve tempo para faze-lo. No entanto, com sua mensagem, com suas palavras, Jesus rechaçou absolutamente o nacionalismo que caracterizava seus compatriotas. Isto foi uma novidade e, ao mesmo tempo, um escândalo para eles. Os grupos fariseus, os monges essênios e o povo em geral, excluíam os estrangeiros do reino de Deus que esperavam. E acreditavam que Deus também os excluiria. Jesus rompeu totalmente com esta arraigada tradição nacionalista.

Em nosso tempo também existem nações que se sentem superiores a outras e por isso se arrogam o direito de domina-las. Igualmente há raças que se sentem mais inteligentes, mais capazes que as demais. E, em nome desta suposta superioridade colonizam, ditam leis, excluem, perseguem e matam. Essas nefastas ideologias produziram na América Latina matanças massivas de indígenas das mais variadas culturas. E depois, escravidão de homens e mulheres da raça africana, arrancando-os violentamente de seus países. A América Latina indígena (mais de 15% da população) é formada pelos sobreviventes desse crime histórico. Os 30 milhões de negros que vivem nesses países são os filhos e netos daqueles escravos que foram trazidos ao continente como animais por homens brancos que se criam no direito ou mesmo no dever de escraviza-los. Ao fazer isso tudo invocaram a Deus, como ainda hoje o continuam a invocar para justificar racismos e discriminações de todo tipo. A ciência demonstrou abundantemente a absoluta falsidade que existe no pensamento racista que afirma que umas raças são superiores a outras. Biologicamente, cada agrupamento humano tem diferentes características físicas e psíquicas, nem melhores, nem piores que os demais, tão valiosos uns como os outros. E, sobretudo, historicamente, as raças e povos tiveram oportunidades muito desiguais para desenvolverem seus próprios valores e expressa-los. Ao nível racial é fácil descobrir o esquema de opressores e oprimidos. E o mais terrível de tudo é que do lado dos opressores estão majoritariamente as nações de mais longa tradição cristã. Todo o evangelho rechaça o nacionalismo e o racismo. E o cristianismo mais original combate qualquer forma de discriminação: já não há judeu nem pagão, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher… (Gal 3, 28). Tampouco branco ou negro, índio ou latino, mulato ou mestiço… Todos são iguais perante Deus. Todos somos seus filhos. Jesus usa da ironia com a mulher sírio-fenícia. E lhe diz que “não se deve jogar pão aos cães”. Faz isso para realçar diante de Salatiel sua falta de compaixão e sua arrogância nacionalista. “Cachorro” é usado como insulto tanto na língua aramaica como na árabe. O cachorro era considerado um animal desprezível e impuro, por andar errante e comer carniça ou carne de animais não puros.

No cristianismo não se pode falar de fronteiras que separem os povos. O nacionalismo mal entendido não é mais que uma expressão coletiva de egoísmo e orgulho. Respeitando a cultura de cada povo, sua história, suas peculiaridades, o cristão deve ser, como às vezes se diz, um “cidadão do mundo”, um “internacionalista”, sensível à dor e às alegrias dos homens de qualquer país, solidário com as lutas e realizações justas de todos os povos. No mundo em que vivemos, no qual a sorte de uma nação já não pode se separar da de seus vizinhos, para o bem ou para o mal, isto não é só um ideal teológico, mas uma evidência histórica. Neste episódio, o milagre de Jesus para a filha da mulher estrangeira é um sinal de que para Deus não há nem fronteiras nem raças. Ele convoca seu povo, dos quatro cantos da terra, e o único sinal que distinguirá os cidadãos desse povo é a liberdade, a vida e a justiça que escolhem os que o formam.

(Mt 15, 21-28; Mc 7, 24-30)

65- OS CACHORROS ESTRANGEIROS

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