SOMOS QUANDO DIZEMOS QUE SOMOS

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Nos fazemos homens e mulheres através do diálogo, da comunicação.

Pelo segundo ano e por solicitude da UNESCO, celebramos o Dia Mundial da Rádio. Estávamos pensando sobre o que enviar-lhes para este dia e nos veio à mente uma anedota antiga de uma das emissoras latino-americanas que descobriu o valor educativo da participação popular, de dar a palavra as pessoas. Melhor dito, de devolvê-la. Porque nestes séculos de saque também quiseram roubar-nos a palavra e ordenar-nos silêncio.

Nada empodera mais que recuperar a palavra. Nada cidadaniza mais que falar em público e dizer que somos e que temos direitos e que pensamos por nossa própria cabeça e não pelo que mande nenhum patrão.

Equipe Radialistas

* * * * *

A começos de 77, fui viver em Tamayo, a estrear a emissora. Rádio Enriquillo, tomando o nome daquele índio rebelde, acabava de sair ao ar para dar voz a todo o sul dominicano. Como chefe de programação já havia selecionado locutores, já tinha microfones, tinha discos e cunhas. O que me faltava era audiência. Então, decidi a estratégia dos velhos. Pensei: se faço falar aos avôs e avós da região, farei ouvir a seus filhos, netos e bisnetos. E assim, gravador na bolsa, a cada tarde saía para entrevistar aos fundadores daquelas comunidades afastadas, aos patriarcas do lugar.

Um dia me falaram de dona Tatica, uma velhinha de El Jobo. Havia perdido a vista, mas não a memória. Tatica lembrava os primeiros matagais e até dos bodes que havia quando ela e seu homem chegaram por aqueles pedaços de mundo.

— E quantos anos tem a senhora, vovó?

—Uhhhh… Eu estava senhorita quando mataram a Lilí.

Coloquei o cassete e comecei a dialogar com ela. Que me contasse de sua vida, de sua família, de como se prepara o feijão com doce. Dona Tatica ia tecendo suas lembranças e até cantarolou os merengues de sua juventude, os que se dançavam agarradinho.

Voltei feliz à emissora para editar aquela conversa com a velhinha de El Jobo. E como as casinhas ficavam tão perto de Tamayo, ocorreu-me voltar mais tarde, mas já não como jornalista, mas como ouvinte, como vizinho. Cheguei pouco antes das 6 da tarde, quando se emitia Encontro. Disse a filha que ligasse o radinho, que em breve sairia a entrevista de sua mãe.

Sentei-me para tomar um café, esperando. Quando começou o programa, Tatica, cega, pensou que eu estava fazendo-lhe novamente as preguntas.

— Cale-se, mai, que isso eu já disse. Agora é por rádio.

Mas a avó escutava pela emissora e me repetia as respostas e até com mais detalhes. Disse-lhe:

— Dona Tatica, ouça o rádio. Essa que está falando é a senhora.

Foi um instante, uma faísca da consciência. Tatica ficou imóvel, ouvindo o programa. Ouvindo-se. Não disse mais uma palavra. E começou a chorar como uma criança.

— Agora também não vai ouvir — lhe repreendeu a filha — com tanta chiadeira!

Não era para menos. Através do aparelho mágico onde só falava o presidente Balaguer, onde cantava Johnny Ventura e Fernandito Villalona, onde dava a benção o bispo Rivas… estava falando ela! Menos importante era o que dizia, mas que o dizia. Que falava em público. Durante muitos anos — toda a vida e todos: o pai, o professor, o marido, o padre, até seus filhos — a mandaram calar. As mulheres falam quando as galinhas miam, assim dizem neste país. Durante muitos anos a convenceram de que ela era boa para trabalhar, para a cozinha e para a cama. Mas em silêncio, obedecendo. Agora, sua voz saía pelo rádio e estariam lhe ouvindo sua comadre Hipólita e seus vizinhos e todos os seus. Se sentiu importante, se sintiu gente.

Voltei à Rádio Enriquillo cantando. Tinha descoberto o mais educativo de uma emissora: o valor da palavra. Antes que qualquer mensagem, antes que qualquer conselho ou programa de alfabetização, o mais libertador é a palavra. Barthes dizia que a linguagem serve para pensar. E Kant, que aprendemos a raciocinar falando. É que o pensamento é filho da palavra, não o contrário. Nos fazemos homens e mulheres através do diálogo, da comunicação. Somos quando dizemos que somos.

Voltei à Rádio Enriquillo cantando. Tinha descoberto o mais educativo de uma emissora: o valor da palavra. Antes que qualquer mensagem, antes que qualquer conselho ou programa de alfabetização, o mais libertador é a palavra. Descartes equivocou-se quando disse “penso, logo existo”. Melhor tivesse dito “falo, logo existo”. Porque o pensamento é filho da palavra, não o contrário. Nos fazemos homens e mulheres através do diálogo, da comunicação. Somos quando dizemos que somos.

SOMOS QUANDO DIZEMOS QUE SOMOS

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