10 CONSELHOS DE MARIO KAPLÚN

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Comemorando a morte de Mario Kaplún, grande mestre de radialistas, compilamos dez de suas recomendações que são todo um tratado de capacitação radiofônica.

O primeiro conselho é para os locutores e locutoras, chatos e chateadores, que pensam em um público com vocação masoquista:

Quem alguma vez já se aventurou a fazer rádio, teve que aprender por experiência a não esquecer nunca esta simples verdade: todo aparelho receptor tem dois botões, um que serve para desligar e outro para mudar de estação. Assim, se nosso programa não consegue suscitar o interesse do ouvinte, nada mais fácil que silenciar-nos. Ou substituir-nos por uma música.

EL COMUNICADOR POPULAR, Ciespal, Quito 1985, pág. 110.

O segundo conselho é dirigido aos jovens escritores, tão impacientes como inexperientes, que imaginam as musas voando sobre sua cabeça e esquecem que a inspiração nasce da transpiração. E da vida.

Mais de uma vez nos cursos sob minha responsabilidade trabalhei com participantes que demonstravam boas aptidões literárias e técnicas, em termos de destreza e captação do ofício, para compor radiodramas: por exemplo, habilidade e sentido radiofônico para construir seus diálogos. Mas tinham uma vida fechada e fácil, sem contato com o povo, sem sofrimentos nem dilemas profundos. Estes estudantes não conseguiam produzir bons radiodramas nem sei se alguma vez o conseguirão. Não sentiam os temas nem vibravam com eles. E em suas pautas, tudo era convencional, falso, dissociado da realidade. Assim como um ator tem que apelar para sua memória emotiva para viver um personagem, mais ainda um escritor dramático precisa ter vivido pessoalmente situações conflitivas e intensas para poder criar outras semelhantes em suas obras. Há algum curso onde isto possa ser ensinado, nem em dez semanas nem em cinqüenta?

UN TALLER DE RADIODRAMA, Materiales de Trabajo, CIESPAL, Quito, pág. 119.

O terceiro conselho é para os comunicadores surdos, para as comunicadoras metidas, os que nunca perguntam, as que jamais duvidam, para quem está convencido de que a importância de suas idéias e descuidam do que é o principal em comunicação:

Comunicar é uma aptidão, uma capacidade. Mas é, sobretudo uma atitude. Suponha que estamos dispostos a comunicar, cultivar em nós a vontade entrar em comunicação com nossos interlocutores. Nosso destinatário tem seus interesses, suas preocupações, suas necessidades, suas expectativas. Está esperando que lhe falemos das coisas que lhe interessam, não das que interessam a nós. E só se partirmos de seus interesses, de suas percepções, será possível estabelecer o diálogo com ele. Tão importante como perguntar-nos o que nós queremos dizer, é perguntar-nos o que nossos destinatários esperam ouvir. E, a partir daí, buscar o ponto de convergência, de encontro. A verdadeira comunicação não começa falando, mas ouvindo. A principal condição do bom comunicador é saber ouvir.

EL COMUNICADOR POPULAR, Ciespal, Quito 1985, pág. 115 y 118.

O quarto e perspicaz conselho, para os roteiristas quando estão diante da folha em branco, quando começam a escrever e não sabem como fazer para que os diálogos fiquem agradáveis e atrativos:

Enquanto esteja escrevendo seu roteiro, não se esqueça nunca que a linguagem falada é diferente da escrita. Devemos pôr nosso texto por escrito, mas ele está destinado, não a ser lido com a visão como um texto impresso, mas ouvido. Tem que soar com a familiaridade, a naturalidade e espontaneidade da linguagem falada. Inclusive, às vezes, com as imperfeições da linguagem falada. O melhor conselho que posso dar-lhes é: escreva escutando-se. À medida que escreve, leia em voz alta o que está escrevendo. Por vezes, inclusive, adiante-se: pronuncie primeiro a frase e depois a escreva. Dite a si mesmo. Escute cada frase, prove como soa. Sinta seu ritmo oral, sonoro. Se soar pesada, longa, artificial, com rodeios, com idas e vindas, refaça-a, divida em duas ou mais frases curtas e diretas. O ouvido lhe dirá onde colocar com mais naturalidade o sujeito, o verbo e o predicado.

PRODUCCIÓN DE PROGRAMAS DE RADIO, CIESPAL, Quito 1978, pág. 280.

Um quinto conselho para os panfletários do mundo e para quem confundiu o falar da vida cotidiana com a embromação de ficar repetindo o que as pessoas já sabem:

Faz poucos anos, tive a oportunidade de escutar pelo rádio um informativo popular dirigido para periferia. Fiz as contas: 80% das notícias transmitidas eram denúncias sobre a acumulação de lixo. Não pude fazer outra coisa que me colocar no lugar dessa gente dos bairros populares as quais esse programa pretendia chegar e servir. Pensei nesses vizinhos que vêem o lixo desde que se levantam até quando vão dormir, que vivem com o cheiro do lixo. E quando ligam o rádio, este fala outra vez de lixo! O que sucede nestes casos é que o emissor não tem claro quem é seu destinatário. Esta insistência na denúncia talvez pudesse ter algum sentido se estivéssemos nos dirigindo acusadoramente aos responsáveis dos maus serviços públicos, isto é, às autoridades. Mas, qual é o valor informativo de ficar repetindo permanentemente para a comunidade que não tem água, que não tem luz, que não tem asfalto? Ela já sabe isso de sobra! Com isso, talvez não façamos mais que reforçar seu sentimento de desesperança, de impotência: "estamos ferrados". O que a comunidade precisa é que a ajudemos a compreender com claridade as causas do problema: por que não há serviços para ela. E, sobretudo, que a ajudemos a encontrar alternativas, saídas de solução.

EL COMUNICADOR POPULAR, Ciespal, Quito 1985, pág. 117.

O sexto conselho, mais conceitual, para os que seguem apostando em uma educação bancária, que difunde conhecimentos e não problematiza. Uma educação que dá tudo mastigado e poupa o esforço de pensar com a própria cabeça:

A educação de adultos, seja presencial ou através de um meio, será educação na medida em que se proponha e consiga ativar as potencialidades de auto e de co-aprendizagem que se encontram presentes em seus destinatários; que estimule a gestão autônoma dos educandos em seu aprender a aprender, em seu próprio caminho ao conhecimento: a observação pessoal, a confrontação e o intercambio, a resolução de problemas, o cotejo de alternativas, a elaboração criativa, o raciocínio crítico. Assim concebida, mais que uma educação à distância, seria próprio falar de uma auto-educação orientada.

A LA EDUCACIÓN POR LA COMUNICACIÓN, Unesco-Orealc, Chile 1992, pág. 31.

O próximo conselho é para os sempre sérios, para as que nunca riem de si mesmas, os rabugentos, as severas e os sisudos do cinzento monastério:

Estamos muito acostumados a que os programas de rádio educativos sejam uma coisa árida e aborrecida. Como esses medicamentos de nossa infância que, para que "fizessem efeito" e fossem julgados confiáveis por nossos pais, tinham que ter necessariamente “gosto de remédio", um sabor amargo e desagradável. Quando ouvimos falar em "rádio educativa", a imagem que nos surge espontaneamente é a de um solitário professor instalado diante do microfone e ensinando, com voz e tom de magister, a um invisível aluno, as tradicionais noções da clássica escola elementar. E há de convir, que desgraçadamente e salvo honrosas exceções, a maior parte da rádio educativa que se vem fazendo na América Latina até agora contribuiu mais para reforçar essa imagem do que para modificá-la. Este livro sustenta uma concepção muito diferente. Pensa que um programa de rádio educativo não tem por que ser chato. Mais ainda: que não deve sê-lo.

PRODUCCIÓN DE PROGRAMAS DE RADIO, CIESPAL, Quito, 1978, pág. 18.

O oitavo conselho, breve e urgente, vai para aqueles comunicadores e comunicadoras que não comunicam nada porque abstraem tudo, conceitualizam, e tornam um discurso incolor, insípido e inodoro:

Sempre que seja possível, optemos pelo relato como forma privilegiada de comunicação popular: ao invés de fazer uma exposição do tema, procuremos convertê-lo em uma história. Comunicar-se é, sobretudo, contar, "contar um causo". Os contadores de histórias foram e continuam sendo os grandes comunicadores naturais do meio popular.

EL COMUNICADOR POPULAR, Ciespal, Quito 1985, pág. 175.

O nono, para os improvisadores de sempre, as que entram na cabine sem pauta e sem idéias, os que se acham donos e senhores do microfone, as que não pesquisam nada porque acham que sabem tudo, os que confiam no feed-back e não suspeitam do feed-forward:

O esquema clássico "emissor-mensagem-receptor" nos acostumou a pôr o emissor no início do processo comunicativo, como o que determina os conteúdos do mesmo e as idéias que quer comunicar; enquanto o destinatário está no final, como receptor, recebendo a mensagem. A experiência nos ensina, entretanto, que se se deseja começar um real processo de comunicação em uma comunidade, o primeiro passo deveria consistir em pôr o destinatário não no final do esquema, mas também no princípio: originando as mensagens, inspirando-os, como fonte de pré-alimentação. A função do comunicador em um processo assim concebido já não é a que tradicionalmente se entende por "fonte emissora". Já não consiste em transmitir suas próprias idéias. Sua principal tarefa é a de recolher as experiências da comunidade, selecioná-las, ordená-las e organizá-las e, assim estruturadas, devolvê-las aos destinatários, de tal modo que estes possam torná-las conscientes, analisá-las e refleti-las.

EL COMUNICADOR POPULAR, Ciespal, Quito 1985, pág. 101.

E um décimo conselho, o de sentido comum. Mario não acreditava em receitas nem em esquemas rígidos. É dele este sábio lema: o melhor formato é o que se rompe. Estudamos a técnica, conhecemos as leis e as possibilidades que oferece o meio radiofônico. Depois, pomos de lado todas as normas e damos asas à imaginação:

Às vezes, nas oficinas, me incomodam alguns participantes que questionam: "Então, isso pode ser feito? É certo, é válido ou não é?" Parecem estar precisando e pedindo regras, preceitos. Diante dessas perguntas, me vem à memória a profunda resposta de São Paulo aos cristãos de Corinto que lhe pediam regras morais, normas de conduta: "Tudo é lícito", teve a audácia de responder o apóstolo, rompendo assim seguramente todos seus esquemas. Mas em seguida acrescentou: "Tudo é lícito, mas nem tudo é conveniente, tudo é lícito, mas nem tudo constrói". Analogamente, diríamos que em comunicação popular não existem regras fixas nem imutáveis. Tudo pode ser feito. O que temos que ver é se a opção que temos é a mais conveniente e adequada para esse caso concreto, a mais pedagógica e eficaz para essa situação determinada. E isso nos chama permanentemente à criatividade.

EL COMUNICADOR POPULAR, Ciespal, Quito 1985, pág. 263.

Com estes dez conselhos, a melhor sugestão de RADIALISTAS é que se animem, os que ainda não o fizeram, a ler os livros completos de Mario Kaplún, o grande mestre dos radialistas latino-americanos.

10 CONSELHOS DE MARIO KAPLÚN

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