95- SETENTA VEZES SETE

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Antes do amanhecer, quando os primeiros galos samaritanos romperam a cantar, nos levantamos e continuamos nossa viagem ao sul, para Jerusalém. A manhã era fresca. Pelo oriente, as nuvens tingidas de rosa anunciavam um dia de sol radiante…

Madalena: Ahuuuummmm…! E então, Pedro?… Dormiu bem?

Pedro: Nem bem, nem mal. Não dormi. E o que isso lhe interessa, Madalena?… Pare de se meter na minha vida, está bem?

Madalena: Que sujeito mais mal humorado!… É isso que dá a gente se interessar pelas pessoas…

Pedro: Olhe, não adiante dissimular… Aqueles dois, o “Tiaguinho e o Joãozinho” mandaram você me perguntar essa besteira… só para fazer as pazes, não é?

Madalena: O que é isso, Pedro, pare de coçar essa sarna….

Pedro: Eu coço se tiver vontade, está ouvindo? E diga a esses dois malditos filhos de Zebedeu, que por algum motivo me chamam de “pedra”. E que não adianta eles quererem me amaciar com mel e azeite.

Durante toda aquela manhã de caminho, Pedro não disse uma palavra sequer. O que havia acontecido na noite anterior em Jenin com minha mãe. Salomé, o havia deixado com o diabo no corpo. Os outros também não falavam muito… Ao meio-dia chegamos a Siquém para comer…

Felipe: E aí, dona Salomé, essas tâmaras vêm ou não vêm…? daqui a pouco vão criar bigatos de tanto ficarem escondidas…

Madalena: O que vai criar bigatos é a língua do Pedro… Já repararam que este narigudo está muito calado…?

Natanael: Pare de provocar, Maria, senão vai correr sangue por aqui!…

Madalena: Bah! Esse sangue não vai longe… Eu já conheço essas bobagens!

Tiago: Pois, escutem, esse pescado estava uma delícia, não é mesmo? Seu tempero estava muito bom, mamãe… Quer mais um pouco, Pedro?… Pedro…

Pedro: Engula você, Tiago. E que o diabo permita que uma espinha atravesse sua garganta!

Tiago: Mas, Pedro, você precisa abrir um pouco essa sua cabeça dura, para que possa entender…

Pedro: E o que é que eu tenho para entender, ruivão dos diabos, diga lá? O que é que eu tenho que entender?

Tiago: Mas, Pedro, eu já lhe expliquei…

Madalena: Não vamos começar de novo, a encrenca de ontem à noite já passou… Não vamos passar a viagem inteira batendo na mesma tecla…

Pedro: Feche o bico, madalena, que se você não fosse o que é, esse assunto não teria fedido tanto…

Madalena: Ah, é mesmo? Então sou eu a culpada das firulas de vocês? Caia fora, conterrâneo, que eu não estou nem aí!

André: Mas, Simão, você está levando a sério as fofocas da dona Salomé? Você a conhece muito bem! Palavras bobas, orelhas surdas!

João: Espere um pouco, André. Ninguém chama minha mãe de idiota, está entendendo, nem você, nem ninguém, está ouvindo?

Mateus: Olhem só quem está dando uma de valente agora…. Depois sai correndo com o rabo entre as pernas, não é João? Você sabe muito bem o que estou dizendo. Rá!

João: Não me faça falar, Mateus, se não quiser ouvir o que não lhe convém, lambe-botas de Herodes!

Tomé: Compa-panheirios, não se ati-tirem pedras… aqui to-todo mundo te-tem te-telhado de vi-vidro!

Pedro: Engula sua língua travada, Tomé, e não se meta nisso!

Judas: Quem vai se meter nisso, sou eu, diacho! Já estou farto de tanta inveja e de tanta conversa besta!

João: Ah, é? Quer dizer então que o bestalhado sou eu, Judas?

Judas: É isso mesmo que você é, João! E daquela vez da viagem ao norte foi a mesma coisa. E que o Natanael era um covarde, e que o Felipe era mais xucro que um camelo…

Felipe: Você disse isso de mim, João?… Você é que não tem dez gramas de tutano, tá certo? Repita isso na minha frente, vamos lá!

Natanael: Cale a boca, Felipe, deixe o Judas despejar tudo. Vamos, Judas, desembuche. Isso não vai ficar assim. Quero tudo preto no branco!

Tiago: Pare com isso, Natanael, não seja estúpido. Não está percebendo que Judas está acusando meu irmão para ficar do lado de Pedro? Não entendeu a manobra?

Judas: Mas, o que você está dizendo agora, seu safado? Por que preciso ficar do lado de Pedro? O que você acha que é, que são todos iguais a você, que puxa o saco de quem está por cima?

Tiago: Se eu puxo o saco, você lambe, condenado iscariote!

Jesus: Parem com isso todos vocês, será que não se podo comer um punhado de tâmaras em paz?! Aqui não faz falta soldados de Herodes nem os de Roma… Estamos nos matando uns aos outros…

Tiago: Cale e a boca você também, Jesus, e não defenda Judas!

Pedro: Cale a boca você, Tiago, e pare de defender-se a si mesmo, que aqui o único culpado de tudo é você, fanfarrão, boca-grande!

Tiago: Se alguém aqui tem culpa é você, Pedro, só você, ninguém mais que você!

Pedro: Agora é que eu vou ter culpa mesmo, cabelo-de-fogo, porque eu vou esganar você!

Pedro, saltando por cima de Mateus e de Tomé, se lançou sobre meu irmão Tiago e o agarrou pelo pescoço… Toda a raiva que tinha guardado em silêncio desde a noite anterior, subiu-lhe pelas mãos. Tiago o recebeu a tapas…

Madalena: Eles vão se matar! Eles vão se matar!

João: Por Deus, separem os dois!

Uns se atiraram sobre Pedro e outros sobre Tiago, mas como os ânimos estavam demasiado quentes, logo todos os vimos envolvidos na briga e, quem mais, quem menos, pescou alguma bofetada naquele rio revolto. A tempestade durou um bom tempo e, no fim, fomos esfriando a cabeça… Não era a primeira vez que brigávamos e, porque nos conhecíamos bem, sabíamos que também não seria a última… O resultado foi que continuamos a viagem e, à altura de Silo, já estava tudo esquecido e voltamos a rir e jogar conversa fora… Somente Pedro continuava resmungando… Sem levantar os olhos do chão, conversava com Jesus, afastado dos demais…

Pedro: Não, não e não. Eu não olho mais para a cara do Tiago. Ele morreu. Por mim, que o enterrem.

Jesus: Mas, Pedro, por favor, escute o que lhe digo: se nos mordermos entre nós e nos dividirmos, o que resta esperar dos que estão lá em cima?

Pedro: É que não é a primeira vez, Jesus. Você não se lembra do mês passado lá no cais? É sempre a mesma história. Esse cabelo-de-fogo é um safado. Já estou com ele por aqui, ó!!!

Jesus: O que aconteceu, aconteceu, Pedro!

Pedro: Aconteceu, aconteceu e continuará acontecendo. Até quando terei de agüentar isso, heim? Uma vez, tudo bem. Mas outra vez e outra e outra mais e…

Jesus: … E outra mais e outra e sete vezes e até setenta vezes sete. Sempre.

Pedro: Ah, é? Muito engraçado você! E será que se pode saber por quê motivo tenho de suportar as safadezas desse bandido?

Jesus: Porque… porque um grãozinho de areia não é nada perto de uma montanha.

Jesus: O reino em que reinava o rei Sadai era extenso como o Grande Mar. Cinco jornadas eram necessárias para percorre-lo de um confim ao outro. Para administrá-lo, o rei havia espalhado por todas as províncias funcionários que se encarregavam de distribuir os dinheiros do reino… Mas alguns funcionários, como Nereu, eram uns grandes bandidos…

Nereu: Vesgo, vesgo… pegue aqui…

Vesgo: Mas, Nereu, é muito dinheiro… E se nos descobrem?

Nereu: Corra, tira-o logo do país!… Que ninguém o veja!… Voltarei amanhã!

Jesus: Nereu voltou no dia seguinte e no outro e no outro. Sempre saía de seu escritório com um gordo saco de moedas debaixo da túnica e as entregava ao seu comparsa, o vesgo…

Nereu: Acabaram-se os tempos de sopa de cebola e farrapos! Logo serás milionário, Nereu, terás mais dinheiro que o próprio rei!

Um soldado: Você está preso, Nereu!

Nereu: O que… o que está acontecendo?

Soldado: Ladrão, contrabandista, maldito. Com um só pontapé eu o porei diante do rei e, quando souber o que você roubou, lhe cortará a cabeça, safado! Vamos, andando!

Rei: Cem milhões de denários! Você se dá conta disso, Nereu? É uma dívida maior que o monte Ararat! Nem em toda sua vida, trabalhando dia e noite, conseguirá me pagar. Chamem o verdugo e cortem o pescoço desse sem-vergonha!

Nereu: Não, não! Tenha compaixão de mim, rei Sadai! Tenha compaixão e perdoe-me!… Perdão, perdão!!

Rei: Está bem, você não morrerá. Mas amanhã, logo cedo, será vendido como escravo. E sua mulher e seus filhos também. É o mínimo que você merece por ser ladrão!

Nereu: Não, não! Tenha piedade de mim, rei Sadai! Eu… eu não sabia o que estava fazendo.

Rei: Não sabia o que estava fazendo…?

Nereu: Bem, eu sabia, mas… perdoe-me de qualquer modo!

Jesus: E como o rei Sadai era bom e seu coração era maior que o imenso reino que governava e ainda maior que a dívida de seu funcionário, o perdoou.

Rei: Está bem, Nereu. Eu o perdôo. Volte ao seu posto. A conta está apagada. Já não vou me lembrar mais dela.

Vesgo: Mas que sorte você teve, heim, Nereu! Nasceu virado pra lua, condenado!

Nereu: É, Vesgo, virado pra lua, mas sem dinheiro. Agora não tenho sequer um centavo para comprar uma tâmara.

Vesgo: Homem, dê-se por contente… Podia ter perdido o pescoço… O dinheiro é o de menos…

Nereu: Como assim? Acha que é o de menos, não é? Pois, olhe, vesgo, pode ir pagando o que você me deve, que se lembro bem lhe emprestei cem denários…

Vesgo: Bah, isso foi há muito tempo! Antes de eu entortar os olhos!

Nereu: Pois eles vão ficar mais tortos ainda se não pagar o que me deve!

Vesgo: Está bem, Nereu. Eu lhe pagarei quando receber o salário…

Nereu: Nada disso. Quero meu dinheiro agora mesmo, está ouvindo? Agora mesmo!

Vesgo: Mas, espere, homem, agora mesmo não… Ahhggg…!

Jesus: Nereu se lançou sobre seu companheiro e o agarrou pelo pescoço e o apertava com força…

Vesgo: Ahhgg…! Não tenho dinheiro… espere, por favor, esperer…

Nereu: Não vou esperar nem mais um minuto. Ou paga agora ou vai para a cadeia!!

Vesgo: Tenha compaixão de mim… tenha compaixão…!

Jesus: Mas Nereu não teve compaixão daquele pobre coitado e o mandou prender…

Um soldado: Foi isso que aconteceu, meu rei… Primeiro arrastou o vesgo por toda a cidade e depois o trancou na cadeia…

Rei: Vão buscar esse Nereu e tragam-no outra vez aqui! Agora ele vai saber quem eu sou! Ele me devia cem milhões e eu o perdoei! Não podia ele ter perdoado ao que lhe devia apenas cem denários?

Pedro: E como acabou a história, Jesus?

Jesus: Simplesmente o rei ficou furioso e meteu Nereu na cadeia.

Pedro: Bem feito! Se fosse eu, agarrava esse homem e o esquartejava!

Jesus: Como?… Esse homem é você mesmo, Pedro. Você fez a mesma coisa que Nereu.

Pedro: Eu…? Ah, claro, já sei onde você quer chegar…

Jesus: Por onde chegou o rei Sadai. Você e Tiago e todos nós temos uma montanha de dívidas com Deus. E não perdoamos os grãozinhos de areia que os outros nos devem.

Pedro resfolegou e apertou o passo… E ainda continuou um tempo meio aborrecido. Mas depois, antes que o sol se pusesse, aproximou-se de meu irmão Tiago, começou a conversar com ele e acabaram fazendo as pazes. O fato é que com Jesus aprendemos a fazer vista grossa com as ofensas dos outros para que Deus se esquecesse também das nossas.

*Comentários*

Na relação humana de cada dia, uma pequena discussão pode degenerar facilmente numa briga generalizada, na qual vêm à tona acusações pendentes de há muito tempo e toda uma série de mal-entendidos. Isso é perfeitamente lógico. Faz parte da convivência. Não se pode fazer dos discípulos de Jesus pessoas alheias a essas altercações. Por causa da situação social de onde vinham, pelo caráter com que são traçados muitos deles, pela situação em que se encontravam desde que estavam com Jesus – de risco e incerteza – e pelo próprio testemunho evangélico (Mt 20, 24; Lc 22, 24), é praticamente certo de que se envolveriam em discussões semelhantes às que se apresentam neste episódio.

O número sete era um número especialmente importante no mundo israelita. A origem estava na observação das quatro fases da lua, que duram cada uma delas sete dias. Daí os israelitas passaram a associar o número sete a um período completo, cheio. O sete passou a ser sinônimo de plenitude, de algo acabado, inteiro. O sete significa para Israel a totalidade e, com um matiz teológico, a totalidade querida por Deus. Assim, a ordem do tempo estava baseada no sete (o sábado, dia sagrado, chegava a cada sete dias), o candelabro do Templo tinha sete braços etc. Por exemplo, o verbo hebraico “jurar” significa literalmente “setearse”, isto é, chamar por testemunha os sete poderes do céu e da terra. O sete é, pois, um número redondo. Perdoar “sete” vezes indica perdoar “de tudo”, completamente. Como um “apagar e página em branco”. Para realçar ainda mais esta idéia, Jesus diz a Pedro para perdoar “setenta vezes sete”. Setenta é uma combinação do 7 e do 10. Se o sete era a plenitude e a totalidade, o dez (a origem estava nos dez dedos da mão), também tinha um caráter de número redondo ainda que em um sentido menor. “Setenta vezes sete” quer dizer sempre, em toda ocasião, sem exceção etc.

A parábola do “servo sem coração” é tipicamente oriental pelo exagero das cifras das dívidas. Dez mil talentos é o equivalente a cem milhões de denários. Isto é, o salário de cem milhões de jornadas de trabalho. É uma soma gigantesca que escapa à realidade, que nem se pode imaginar. Com ela, se quer frisar fortemente o contraste com os escassos cem denários da pequena dívida entre dois companheiros. Nesta parábola, Jesus, além de falar de um caso acontecido na Palestina, está se referindo muito mais a um rei estrangeiro, ao estilo dos soberanos do Oriente. Isto se nota, por exemplo, na ordem que o rei dá de vender os filhos e a mulher do devedor, costume que não era israelita, ou no fato de mandar prende-lo como pagamento de suas dívidas, lei que não existia no direito judaico.

No tempo de Jesus, os escritos dos rabinos que falavam sobre o juízo final, referiam-se sempre às duas medidas que Deus usa para governar o mundo: uma, a medida da misericórdia; outra, a da justiça. Ao final, diziam os rabinos – “a misericórdia desaparece, a compaixão fica afastada e a benevolência se esfuma”. Só ficará a pura justiça. Jesus transformou totalmente esta idéia teológica de seu tempo. Ensinou que também a misericórdia, o perdão de Deus serão válidos na hora final do ajuste de contas, mas acrescentou um dado decisivo. Esse perdão de Deus chegará somente aos que tenham perdoado, para aqueles que, sabendo-se perdoados por Deus tenham tido misericórdia para como seus irmãos. Enquanto que, aquele que tenha menosprezado o perdão de Deus será alcançado em cheio pela justiça. A medida, como indica a oração do Pai Nosso, é posta por nós mesmos: “Perdoa nossas ofensas assim como nós perdoamos aos que nos têm ofendido”.

O perdão entre os homens é uma categoria básica do evangelho. Quando alguém perdoa, corre um risco. Jesus, ao perdoar, arriscava sua confiança em alguém, esperando que este gesto se transformasse num chamado que sacudisse a consciência e permitisse ao outro mudar de conduta. Assim o fez com Mateus, com a Madalena, com Zaqueu, com Nicodemos… Entabulou com eles uma nova relação, deixando de lado qualquer preconceito, perdoando o passado para alcançar um futuro diferente. Trata-se de uma atitude positiva, profundamente otimista diante do homem: o mal nunca tem a última palavra, o ser humano é capaz de transformação. Isto é o perdão cristão, um excesso de confiança – nunca ingênua – pelo qual nos entregamos ao outro e nos colocamos em suas mãos com a esperança da comunidade. É um gesto-limite para superar situações-limite de ruptura.

É difícil falar de perdão, de reconciliação, quando saímos do âmbito da comunidade dos irmãos e passamos para o nível de uma sociedade desigual e injusta. Quase sempre se usou a mensagem de reconciliação do evangelho como um fator de alienação. O amor cristão é combate, denúncia e crítica, mas é preciso superar o círculo vicioso das revanches e desforras amargas, e pela capacidade de perdão reconciliação do evangelho como um fator de alienação. O amor cristão é combate, denúncia e crítica, é preciso apontar com força para uma nova justiça em uma nova sociedade.

(Mt 18, 21-35)

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