KILLARICOCHA, A MALDIÇÃO DA ABUNDÂNCIA (8)

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Oitavo capítulo de uma radionovela bem polêmica.

KILLARICOCHA, A MALDIÇÃO DA ABUNDÂNCIA (7)

Capítulo 8 Água sim, ouro não!

CONTROLE MÚSICA CAMPONESA ALEGRE

LOCUTOR Killaricocha.

LOCUTORA A maldição da abundância.

NARRADORA O senhor ministro chegou de helicóptero e com forte escolta militar. Sem perder tempo, dirigiu-se ao salão nobre da prefeitura de Killaricocha e começou seu interminável discurso…

MINISTRO (SE OUVE EM 3 P) … o governo central, sempre preocupado com o desenvolvimento e o bem-estar das comunidades, especialmente camponesas, deu a esta empresa, a Green Golden Mines, a autorização necessária… (SE PERDE)

LUCY (MEIA VOZ)… Mestre Nicanor, esperamos até que acabe o bla-bla-blá ou o interrompemos?

NICANOR Como eu tenho vontade, vou pedir a palavra.

MINISTRO (DE 3P a 1P) … esperando que vocês não se deixem levar por aqueles fundamentalistas que se opõem a toda atividade mineradora…

NICANOR Senhor ministro, com sua licença!

MINISTRO Sim?… Lhes dizia que…

NICANOR Senhor ministro, posso fazer-lhe uma pergunta?

MINISTRO Sim, agora mesmo. Para isso viemos, para dialogar com a comunidade.

NICANOR Pois dialoguemos, senhor ministro. Olha, aqui fizemos uma consulta e a maioria dos moradores não quer a empresa que o senhor mencionou. Queremos que eles vão embora.

MINISTRO Como o senhor sabe, senhor…

LUCY Mestre Nicanor, é o professor do povo!

MINISTRO Pois como o senhor deve saber, senhor Nicanor, a consulta que vocês fizeram não tem validade nem é vinculante, porque não foi feita pela autoridade competente.

NICANOR E não dizem vocês sempre que o povo é o mandante e vocês são simples mandatários? Pois se é assim… esta consulta é vinculante!

VOZES Consulta vinculante, o povo é o mandante!

MINISTRO Silêncio, silêncio… Seguramente alguns fundamentalistas lhes encheram a cabeça com ideias equivocadas. Que a mina contamina, que a mineração é ruim… Mas, senhores, desde que o homem vive neste planeta extrai minerais, faz atividades de mineração…

LUCY Nós não estamos contra a mineração, senhor ministro!

MINISTRO Me alegra ouvi-la, senhora…

LUCY Nós estamos contra esta mineração. Uma mineração feita por uma empresa estrangeira. Uma mineração a céu aberto que melhor se chamaria a inferno aberto.

MINISTRO Talvez a senhora desconheça, o minucioso informe de impacto ambiental realizado por nosso governo com os mais altos padrões de excelência. Esta será uma mineração verde e sustentável.

VIZINHO Isso nem o senhor acredita, senhor ministro! Sustentável uma pinóia! Nenhuma mineração é sustentável porque os minerais acabam. Os minerais não crescem outra vez.

EFEITO BURBURINHO

MINISTRO Mas, o que sabem vocês sobre isto? De onde tiraram essas ideias ingênuas?

LUCY Do que vimos em Tambo Vermelho, senhor ministro. Do que nos explicaram os companheiros da Argentina, da Colômbia, do Peru, do Equador… Eles nos contaram o pesadelo que estão vivendo por obra e desgraça dessas transnacionais…

NICANOR Senhor ministro, em Tambo Vermelho opera uma empresa chinesa que seguramente o senhor conhece.

MINISTRO Claro que sim. E está fazendo um magnífico trabalho para o desenvolvimento da comunidade.

NICANOR Não me diga? Pois em Tambo Vermelho nos aproximamos do rio onde o povo tomava água e enchi esta garrafa. Olhe… Tragam-me um copo, por favor… Senhor ministro, já que o senhor tanto aplaude a empresa mineradora, tome a nossa saúde um gole desta água… (VERTE ÁGUA) Por favor, senhor ministro…

MINISTRO Senhores, basta de bobagens. Eu não vim aqui para suportar seus desaforos. Boa tarde.

EFEITO BURBURINHO

CONTROLE MÚSICA DE SUSPENSE

GERENTE (FILTRO) Ou seja, que o senhor convidou o Ministro de Energia e Minas para “dialogar” com esses revoltosos…

PREFEITO Sim, senhor gerente, na realidade não se avançou muito… Mas vou voltar a falar com os dirigentes para ver se…

GERENTE O senhor está me fazendo perder tempo, senhor prefeito. Vou ligar agora mesmo para o comandante da polícia e eu resolverei este problema em 24 horas, oh yes.

PREFEITO Um momento, senhor gerente. O prefeito sou eu. Corresponde a mim falar com o comandante…

GERENTE (O CORTA) A única coisa que lhe corresponde é calar-se. Ou será que o dinheiro que já recebeu não é o suficiente?

CONTROLE MÚSICA DE SUSPENSE

VIZINHO E agora que fazemos, dona Lucy?

LUCY Nos declaramos em sessão permanente. Agora vão conhecer nossa força. Mestre Nicanor, o que o senhor diz?

NICANOR Eu digo que estou com os ossos moídos com o plantão destes dias… mas se for preciso voltar a deitar na frente da empresa, lá iremos.

LUCY Não, mestre, façamos outra coisa. O que acham de uma marcha? Uma manifestação por toda Killaricocha, rua por rua, chamando a todos os vizinhos, somando as mulheres, os comerciantes, os jovens… Até os surdos vão nos ouvir!

CONTROLE MÚSICA DE SUSPENSE

GERENTE (FILTRO) Senhor comandante de polícia, aqui quem fala é o Gerente Geral da Green Golden Mines. Suponho que está sabendo da agitação que se está vivendo em Kikiricocha.

COMANDANTE Claro que sim, senhor gerente, mas não se preocupe, porque…

GERENTE Claro que me preocupo porque é minha empresa. Meu dinheiro. My business. O prefeito está perdendo um tempo precioso. E esta situação é muito fácil de resolver, oh yes.

COMANDANTE Alguma ideia, senhor gerente?

GERENTE Em meu país dizem: morto o cão se acaba a raiva, me entende?

COMANDANTE Se refere a…?

GERENTE Refiro-me ao velho truque dos ladrões que gritam “ladrão, pega o ladrão!” (RI)… Naturalmente, minha empresa saberá recompensar devidamente por este serviço que vocês farão em favor da paz e do investimento privado.

CONTROLE MÚSICA DE TRANSIÇÃO

ANITA Papai, estou angustiada…

FERMÍN Tranquila, Anita… É que tua mãe tem a cabeça como uma pedra. Quem ela acha que é, hein? A sobrinha de Simón Bolívar? Já dizia meu avô que o que se mete a redentor acaba crucificado.

ANITA Não me angustie mais, papai… Seria melhor nós irmos.

FERMÍN Ir para onde?

ANITA À marcha. Não vamos deixar a mamãe sozinha. Qualquer coisa pode acontecer.

CONTROLE MÚSICA DE SUSPENSE

EFEITO BARULHO MANIFESTAÇÃO

NARRADORA A praça de Killaricocha fervia de gente. Em grandes cartazes podia se ler: ÁGUA SIM, OURO NÃO. ESTA TERRA É NOSSA. FORA A GREEN!

LUCY Não fiquem parados, vizinhos! Venham, vizinhas, saiam, unam-se, que a lagoa é de todos! E a água vale mais que o ouro!

NARRADORA A multidão começou a mover-se. Aplaudindo e gritando palavras de ordem, a população de Killaricocha avançou sobre a rua principal da cidade.

EFEITO SINOS E BUZINAS

NARRADORA O padre fez soar os sinos da igreja em sinal de apoio. Os motoristas tocavam suas buzinas. Até os cachorros da cidade latiam mais forte que nunca.

TODOS Água sim, ouro não! Água sim, ouro não!

NARRADORA Na esquina do segundo parque, um cordão de policiais com cassetetes e escudos fechou a passagem dos manifestantes. Dona Lucy e mestre Nicanor iam na primeira fila.

LUCY A rua é pública, deixem-nos passar!

COMANDANTE A marcha não está autorizada. Retirem-se para suas casas.

LUCY Daqui não nos movemos. É uma marcha pacífica. Companheiros, o que dizem? Vamos embora ou seguimos?

VOZES Seguimos, seguimos!

EFEITO GRANDE ALVOROÇO

NICANOR Dona Lucy, quem são aqueles?

LUCY Aqueles quem, mestre?

NICANOR Aqueles que encapuzados… Olhe lá atrás… Não me parecem boa gente… Acho que estão armados… Mas nós vamos continuar levantando nossa voz… Killaricocha sim, mineradora não!

VOZES Killaricocha sim, mineradora não!

EFEITO TIROTEIO E GRITARIA

NARRADORA Tudo ocorreu em questão de segundos. Ouviu-se uns disparos e vários policiais cairam feridos.

COMANDANTE (3P) Fogo, disparem!

NARRADORA De imediato, o comandante deu a ordem de responder aos disparos que tinham surgido da multidão. Ninguém entendia o que estava acontecendo.

EFEITO MAIS DISPAROS, BOMBAS

NARRADORA Em meio ao tumulto e as bombas lacrimogêneas…

VIZINHO (AGITADO) Mestre Nicanor, o que ouve?… Está sangrando… E a senhora, dona Lucy!… Por favor, não empurrem… Por Deus, que alguém me ajude a tirar estes feridos… Mataram a dona Lucy!… A mataram!

CONTROLE MÚSICA DE FECHAMENTO

LOCUTOR Uma produção de Radialistas Apaixonadas e Apaixonados e da Fundação Rosa Luxemburg.

KILLARICOCHA, A MALDIÇÃO DA ABUNDÂNCIA (9)

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